Spinoza e a autoestima intelectual

Lucas Bento Pugliesi

Slavoj Zizek observou com algum mérito que uma das normas não-ditas da academia é nutrir um amor efusivo e acima de qualquer suspeita por Spinoza. No referido texto, o objetivo do pensador é mais uma vez polemizar, tendo em vista os circuitos nos quais o filósofo do século XVII tem feito sucesso: os discípulos anarquistas de Deleuze, do marxismo revisitado por Althusser, do niilismo positivo de Nietzsche e até de vertentes do feminismo – Zizek cita Genevieve Lloyd que se esmeraria em encontrar no críptico significado do terceiro tipo de conhecimento postulado por Spinoza (o intuitivo, que não se confunde com o analítico-racional, nem com o sensorial) a superioridade da epistemologia do feminino sobre o masculino logocentrado que conhecemos.BSpinoza2_SK_bmp

O que Zizek não diz, apenas sugere, é que esse amor se conectaria a alguma sorte de qualidade palpável do sistema filosófico spinoziano, ou para falar com o próprio filósofo, um modo de sua filosofia. Com modo tento me aproximar do sentido técnico proposto por Spinoza a partir de uma hierarquia de categorizações sobre o ser, isto é, em primeiro lugar a substância, a coisa em si mesma, em segundo os atributos, aquilo que é discernível na substância (que o autor proporá como a extensão e o pensamento, enquanto formas abstratas); os modos infinitos que decorrem dos atributos enquanto universais que descrevem o funcionamento do mundo (por exemplo, o funcionamento da movimentação dos corpos que depende, portanto, da extensão); e por fim, os modos finitos que dizem respeito ao particular das coisas, seguindo a aplicação linear das instâncias mais gerais (por exemplo, o movimento de uma caneta específica que depende tanto do modo infinito da movimentação, quanto do espaço e do movimento dos demais corpos a sua volta).

Não foi por maldade com o leitor que de um despretensioso tateio inicial parti para a hierarquia de alguns conceitos duros do autor. Penso que aquilo que torna Spinoza tão atraente é esse exato aspecto sistemático e concentrado de sua obra. Desde as leituras românticas de Kant, acostumamo-nos em história da filosofia ao fragmento, a não-sistematicidade, à contingência. O que Spinoza oferece a esses leitores modernos (e quando não, pós-modernos) é um exercício de rigor, uma explicação cristalina do mundo e de todas suas coisas (incluindo Deus e sua não-época), a capacidade analítica e a propensão para justificar e encontrar as causas do funcionamento dos fenômenos, algo que, progressivamente mais, escapa-nos.

Ora, mas se é pela sistematicidade, por que não o velho Kant está sendo reeditado em obras completas? Talvez porque seu vocabulário seja muito aproximado ao nosso, talvez por seus valores éticos lembrarem o ranço daquilo que aos poucos viemos a desprezar, por termos assistido, de algum modo, as relações de pensamento que de Kant refluíram. Mas pode ser uma explicação preguiçosa. Sem dúvidas é.

Há algo mais. Além da sistematicidade, da prosa técnica relativamente inteligível (excetuando-se os momentos em que o autor se aventura a montar um diálogo emulando Platão, o que gera costumeiros resultados questionáveis), o sistema de Spinoza parece apontar a algo profundamente desejável: uma ética, mas não uma ética qualquer, mas àquela que nos valoriza enquanto pessoas. Nós quem? Os leitores de Spinoza, os estudantes de humanidades, filósofos, teóricos, amantes de um saber que, sabemos bem, parece esconder-se.

Pontua bem Zizek: nada mais avesso ao ceticismo, à desconstrução, ao temerário ambiente de dúvidas que torna praticamente impossível a aderência a qualquer ponto de vista, do que uma filosofia que categoricamente indica com clareza e discernimento um valor. Nada mais avesso, portanto, ao nosso ambiente acadêmico repleto de modalizações ao estilo “tendo em vista a teoria X”, “se aceitarmos a oposição entre A e B como sendo de algum mérito” do que a postura firme de Spinoza que em seu Tratado Político vai a direto confronto aos valores da Escritura (custando-lhe a excomunhão judaica), que em seu Tratado de Deus do Homem e de sua Felicidade desprende Adão do domínio das coisas Reais para as racionalizadas. Spinoza não teria respeito algum pelo safe space. Sua escrita é de confronto, levando a um radicalismo inaudito as já duríssimas proposições de Descartes.

Mas protelei. Qual valor interessa tão particularmente a nós, leitores de Spinoza? Como é sabido, das proposições mais heréticas do vidraceiro de Amsterdã é a de que bem e mal não compartem da substância (que é uma só, Deus), sendo, portanto do domínio dos seres racionalizados, das coisas pensadas, das relações, aspectos oponíveis há coincidência entre coisa e Ideia da coisa (por exemplo, Pedro e a ideia formal de Pedro). A rigor, para Spinoza, Deus é onisciente, onipresente, mas não é, essencialmente, bom. Talvez fosse mais correto dizer, em seus termos, que Deus simplesmente é e não tem como não ser (conforme prova Spinoza ao exorcizar a tese judaica dos mundos possíveis, postulando que se este mundo é perfeito, Deus o criou conforme é e nisso reside sua perfeição). Daí decorre outra proposição radical: a de que Deus não é o exercício de uma vontade controlada que almeja impingir seus desígnios numa humanidade que Lhe resiste. Deus não possui um telos, um fim, uma finalidade.

Ora, mas como se pode construir uma filosofia moral baseada nessa esterilização violenta do bem e do mal? Justamente, dirá Spinoza que o telos moral do homem é chegar ao conhecimento próprio, ao saber sobre a concordância entre coisa e Ideia, entender a relação causal entre fenômenos, seus efeitos, os atributos que a regem e, em última instância, conceber a substância, única possível, Deus.

Como se nota, o Deus spinoziano não é de forma alguma o Deus institucionalizado pelas igrejas, deveras antropomorfizado como ser e munido de vontade e desejo. “Não”, dirá numa absoluta oposição à superstição e à crença. Quando não se conhece uma coisa é mais fácil imaginá-la a partir de um conjunto de referências estabelecido. Assim, para usar dos exemplos divertidos do autor em seu Tratado da Correção do Intelecto, quando conhecemos uma mosca torna-se impossível conceber algo como uma mosca infinita. Por analogia, como não se conhece costumeiramente a alma como se conhece uma mosca, é possível imaginar disparates como uma alma quadrada. No caso de Deus, um Deus barbado à moda grega. Portanto, a superstição impede o conhecimento verdadeiro ao nublar e confundir, povoando com a imaginação aquilo que não é entendido de forma clara e distinta. Se aprendermos com Spinoza que Deus é a substância, causa imanente (ou seja, causa que produziu em si mesmo e não dualmente, percebe-se) de tudo, então sua forma ganha os contornos que impedem à coincidência com as figurações imaginadas pela Igreja.

Nesse sentido, o único valor, a perfeição moral, diz respeito ao possuir das coisas através do conhecimento. Dirá no mesmo tratado que “a certeza não está em nada fora da própria essência objetiva” (p.337) e em seguida que a certeza decorre da possessão da ideia verdadeira. Sabemos o que é a Ideia de algo e que algo é real e por decorrência sabemos que sabemos. Assim, devemos enquanto aspirantes à ética buscar possuir as ideias, conhecer as substâncias para que possamos gozar do estágio de perfeição superior que é, aparentemente, infinito. Muito antes do desejo criativo de Deleuze, Spinoza alçava o potencial humano a patamares nunca dantes cogitados (perdoem-me o trocadilho com Descartes).

Aqui começo a amarrar as pontas que ameaçam se entrelaçar. Novamente, o público de Spinoza no século XXI é majoritariamente, imagino, composto desses amantes do verdadeiro que, sem saber, possuíam já o telos moral de Spinoza, ainda que por acidente. Enquanto estudiosos, estamos a serviço da “verdade”, ainda que pontuada por diferencias, errâncias, negatividades dialéticas etc.  E o que nos propõe nosso amigo do século XVII é que há valor nesta empreitada. Não só um valor, mas o único desejável:

Numerosos, com efeito, são os exemplos de homens que sofreram a perseguição e a morte por causa de suas riquezas e também de homens que, para se enriquecer, expuseram-se a tantos perigos que acabaram por pagar a estultícia com sua vida. Não há menos exemplos de homens que, para conquistar ou conservar a honra, sofreram miseravelmente. Inumeráveis, enfim, são aqueles cujo amor excessivo pela libido apressou a morte (p.329)

Parece um inventário dos nossos outros, daqueles que costumeiramente nos destratam no âmbito da disputa pela partilha. Contra todas as valências materiais (e portanto, finitas), Spinoza nos lembra daquele que é não-contigente, estável e mais digno, o valor intelectual contido tanto na conformidade entre a Ideia do saber e o saber, mas já, de imediato, na Ideia do projeto de saber, ainda que não atualizado. Dirá que um pintor que imagina um quadro, mas não chega a pintá-lo, produziu um pensamento não menos verdadeiro que concorda consigo.

No momento em que se vive (e é mundial, não nos enganemos buscando heterotopias), no qual se proliferam start ups com conceito (esses dias um restaurante anunciava, junto ao cardápio, que o espaço para coworking era gratuito), o imperativo de se atrelar pesquisa e educação às necessidades mais imediatas do mercado, elogio amplo do anti-intelectualismo e fechamento de cursos não pragmáticos (ou já nos esquecemos do episódio recente no Japão?), um pensador como Spinoza nos oferece um reduto, um alento para a, paulatinamente esmagada, autoestima.

Seu sistema nos dignifica enquanto partícipes de um modo desejável que visa entender por si, como um fim em si, sem a transitividade da moeda de troca, sem a necessidade constante de justificação. Para nós isto é novíssimo. Um mestre nos contou em aula que seu orientador gostava de justificar a própria empreitada intelectual através de simples dizeres: “pela grandeza da alma”. Soa-nos afetado, absurdo, distanciado, um fóssil. E talvez seja por aí que desencavamos este outro fóssil.

Mais, tanto na Ética quanto no Breve Tratado, Spinoza nos evidencia, coloca diante dos nossos olhos, as razões do sofrimento. A alegria é o estado de conjunção com um efeito positivo sem saber-lhe a causa, o amor é o estado de conjunção com um efeito positivo atribuindo-lhe a causa a um objeto. Por consequência, a dor advém do estado de disjunção em relação a esse objeto que antes nos causava o efeito prazenteiro. Assim, muito como um estoico, Spinoza observa que as afecções negativas serão mais prováveis quanto o mais direcionarmos nossas paixões aos objetos finitos, morrentes, sejam pessoas, riquezas ou superstições. O que se pode fazer é um esforço por controlar o cavalo raivoso de Platão, por domesticar as paixões e direcioná-las ao amor pela verdade que, por definição, é infinita:

“Por conseguinte, concluímos que se aqueles que amam as coisas perecíveis que ainda contêm um certo grau de essência são miseráveis, qual não será a miséria daqueles que amam as honras, as riquezas e a volúpia, que nada possuem de essência” (p. 97)

Spinoza nos devolve a superioridade moral que nos foi tomada pelo mundo das coisas, algo do campo do inestimável. O estágio em que o filósofo nos encontra é similar àquele com o qual iniciou sua empreitada: “Via-me, com efeito, em um perigo extremo e forçado a procurar, com todas as forças, um remédio, ainda que incerto, assim como um enfermo que possui uma afecção mortal, que vê a morte iminente se não emprega um remédio, e está coagido a procurá-lo, ainda que seja incerto, pois toda a sua esperança nele está” (p.329). Mais do que enfermos, estamos mortos. Mas setembro é o mais cruel dos meses e Spinoza vem nos acordar de nosso sono letárgico para lembrarmos-nos da necessidade de resistir. Nada mais justo do que no momento (mundial, reitero) no qual as fogueiras inquisitoriais voltam a se acender, abracemo-nos ao filósofo que mais beligerantemente tentou apagá-las.


A OBRA COMPLETA de SPINOZA ganhou o primeiro lugar no Prêmio Jabuti na categoria Tradução e foi a primeira a verter a obra do filósofo na íntegra. Editado em quatro volumes, o projeto foi pensado e organizado por Jacó Guinsburg, Newton Cunha e Roberto Romano.

 

O primeiro volume da coleção Spinoza: Obras Completas, traz os textos (Breve) Tratado de Deus, do Homem e de Sua Felicidade, Princípios da Filosofia Cartesiana, Pensamentos MetafísicosTratado da Correção do Intelecto Tratado Político. Mesmo seus textos inacabados já demonstram um aparato teórico não só abrangente, mas que permanece como referência indispensável.

o tomo seguinte foi o primeiro a publicar a correspondência completa do filósofo holandês, seguida ainda de sua biografia, por Johannes Coleru, e de depoimentos de nomes como J.W. von Goethe, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Bertrand Russel, Gilles Deleuze, entre tantos outros.

O terceiro e o quarto contemplam o Tratado Teológico-Político, Ética e Compêndio de Gramática da Língua Hebraica. Obras singulares e dos modelos máximos do pensamento, são de influência imensurável, seja pelo rancor despertado nos meios religiosos, seja pela profundidade percebida nos círculos filosóficos.

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