Sagrado, Profano, Mefistofáustico

Posia, drama e encenação se entrelaçam na fantástica fábrica de invenções haroldianas.

Não é pouca coisa deparar-se com um texto inédito de Haroldo de Campos. A qualidade literária, as surpresas de linguagem, o domínio técnico por si só garantem o prazer da leitura. Mas surpreende, todavia, a atualidade crítica do texto, nos impelindo a uma compreensão trágica – bufotrágica, para usar a expressão do poeta – do mundo contemporâneo.
Unica peça de teatro escrita pelo poeta, seu universo alegórico, satírico, farsesco, pleno de símbolos, mitos e fantasias mal faz referências a coisas e pessoas reais; mas forma um retrato multidimensional dos mais nítidos da nossa realidade.

Graal legenda de um calice_S58

 

Apesar de já senhora idosa, nascida em 1952, Graal, Legenda de um Cálice chama atenção por sua relevância. A única peça escrita por Haroldo de Campos, toca questões de enorme atualidade, desde o propósito da arte e a idolatria de ídolos vazios até a corrupção e a alienação do povo pelo capitalismo e pelo vício do efêmero, fazendo de Graal, nas palavras de Carlos Antônio Rahal, “uma pequena jóia do teatro brasileiro”. Acompanha a publicação textos e comentários de Carlos Antônio Rahal (org.), J. Guinsburg, Lucio Agra e Claudio Daniel.

Entra Dame Mémoire, consideravelmente rejuvenescida, e fala:
DAME MÉMOIRE: Estás só, meu filho. Só.
GRAAL: A Solidão é a sala do trono de um rei estéril. É um celibato com as unhas.
DAME MÉMOIRE: Meu filho… Em meu colo de ninar, tua infância envelhece há muitos anos. Vê! Eles não te conhecem. Eles te repudiam. Teu mistério é a marca de uma pétala na página de um livro. Eles esquecem.
GRAAL: Às Cruzadas! Às Cruzadas!
DAME MÉMOIRE: As cruzes são, há muito tempo, o álibi de um deus. Eles não crucificam: devoram. Júpiter Tonante despede raios ultravioleta. O raio x é a incógnita de uma equação cordial: eletrocardiograma, dizem. Um maremoto se organiza a beira- cílios, e os cristais osmóticos se confundem com os cristais de neve. Qual o lobo, sob tantas ovelhas de pele? Ouve, ouve a Vox Populi, e vê se há lugar para ti num mundo que subloca os Lugares Comuns e estataliza os Estados de Coisas.

Trazem para a cena a VOX POPULI. Não é uma personagem. É personagens.De fato, um alto-falante cingido por uma coroa de louros e disfarçado por um véu negro. Sua posição é muito difícil.
VOX POPULI transmite um diálogo de mulheres:
1ª MULHER: Eu ontem saí com o P. Fomos a um cinema, e depois dançar. Depois, você sabe… Na volta comemos um churrasco. Estava delicioso.
2ª MULHER: Você tem sorte. O P é muito mais bonito que o P’.
1ª MULHER: Você não imagina como eu sou sensível. Não posso ver certas coisas: isso agora. As comungantes. Os véus brancos. Eu adoro os véus brancos. Quando me casar usarei metros, kilômetros V é é é é u s. ( Termina num ruído confuso.)
DAME MÉMOIRE: Meu filho!
Vox Populi transmite um diálogo de homens:
1º HOMEM: Eu ontem saí com a L. Ela queria ir a um cinema. Fomos. Depois, quis dançar. Fomos. Depois, você sabe… Na volta ela comeu um churrasco. Achou delicioso.
2º HOMEM: Você tem sorte. Os seios da L são maiores que os da L*.
1º HOMEM: Um objeto fora do lugar? Você não imagina como eu sou meticuloso. Não
gosto de ver coisas assim. Quando eu me casar, dedicarei os domingos a isso. Os sábados também. Quero ver tudo em ordem. Um lar é ver todas as coisas em ordem. Em Ó ó ór d e m. (Termina num ruído confuso.)


28 HC e painel (3)HAROLDO DE CAMPOS formou-se em Direito, em 1952 e doutorou-se em Letras, em 1972, pela Universidade de São Paulo.
Tornou-se professor-emérito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1990. Poeta, crítico e tradutor dos mais respeitados no mundo, recebeu prêmios como Jabuti (Brasil, 1991, 1992, 1993, 1994 e 1999), Internacional Lumière (Itália, 1998), Octavio Paz, Poesia e Ensaio (México, 1999), Roger Caillois (França, 1998), hors-concurs Fernando Pessoa (Portugal, 2000). Dirigiu a coleção Signos, da editora Perspectiva, com quarenta títulos publicados e em publicação.


 

Convite_Graal_Casa das Rosas

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