Do Imaterial ao Material: A Influência do Idealismo Filosófico na Ciência

 

Por Rafael Velloso Luz

Concepções como natureza humana, amor verdadeiro, alma gêmea, entre outras noções de sentimentos e modos de convivências tratados como ideais, estão fortemente enraizadas em nossa sociedade. São ideias e padronizações existentes no campo das abstrações, mas que possuem um vínculo tão íntimo e próximo com a humanidade que são tratadas quase como existentes, materialmente falando. Questões que, inicialmente, podem parecer inofensivas, mas ao serem observadas de forma criteriosa ditam os modos de vida das comunidades modernas, tendo, portanto, fortes implicações culturais e sociais.

Que idealizações como essas pairem sobre o imaginário da sociedade é um fato que pode ser constatado quase que cotidianamente, porém estariam estes valores vinculados somente as nossas individualidades? Ou exercem influência apenas nos aspectos culturais e sociais? Ou será que outros campos de nossa civilização, como as ciências naturais, também podem ser direcionados por idealismos? Materia e mente_3D_BBSão perguntas assim que o argentino Mario Bunge trás à reflexão em Matéria e Mente. Já Platão em sua Alegoria da Caverna tentou dar conta destes questionamentos tamanha foi (e ainda é) a influência de sua obra, não somente nos aspectos sociais, mas principalmente no desenvolver filosófico e científico, servindo como uma forte base para o idealismo. É comum pensarmos que tal inclinação filosófica estaria restrita apenas às áreas do conhecimento como a metafísica e a filosofia da mente, entretanto Bunge mostra, desde o início, que seu raio de influência é mais amplo do que se pode imaginar.

Foi dito que o materialismo é uma ontologia espontânea de cientistas. Isso vale para cientistas experimentais. Mas um número de físicos teóricos exponenciais reinventou o idealismo de Platão e o fenomenalismo de Buda, Ptolomeu, Hume, Kant, Comte e Mach. […] Além disso, o idealismo continua caminhando com vigor na psicologia descerebrada e nos subúrbios da ciência social – antropologia interpretativa (ou hermenêutica) e sociologia fenomenológica. ”¹

 

Portanto, não somente campos como as ciências sociais são influenciados pelo idealismo, mas as ciências da natureza também, chegando a inspirar um dos mais influentes físicos do século XIX. Lorde Kelvin, considerado uma das principais mentes do século XIX, contribuiu ao campo da análise matemática dos fenômenos elétricos e foi parte integrante na unificação de determinadas áreas da física, além de desenvolver a escala Kelvin de temperatura, amplamente utilizada até os dias de hoje. Como podemos observar em sua célebre frase:Kelvin_Right_Hon_Lord.jpg

“’existem apenas duas nuvenzinhas no céu da física’, e suas variantes, aludindo a crença de completude da física no início do século passado. As duas ‘nuvenzinhas’ nada mais são do que a teoria da relatividade e a mecânica quântica, dois pilares da física moderna”².

Se até mesmo um dos mais célebres cientistas de nossa história dialogava com o idealismo, não seria esse realmente o melhor método para o entendimento da natureza?

Segundo Bunge, não. Tanto a natureza quanto as complexidades das dinâmicas sociais devem ser enfrentadas e entendidas de forma materialista e, possuindo uma base ontológica e epistemológica sólida, sendo a primeira uma ferramenta metodológica para se entender o mundo e a segunda utilizada para analisar como ocorre o processo de desenvolvimento do conhecimento. Entretanto, se o materialismo não é a forma de entendimento do mundo mais utilizada pela ciência, qual é? E quais suas implicações? O autor destaca que, como um dos frutos do distanciamento entre filosofia e ciência, somado a uma má compreensão do conceito de ontologia, epistemologia e de que forma ambas dialogam, alguns cientistas renomados, como Heisenberg, confundem o positivismo com o naturalismo e materialismo. Tal afirmação pode ser observada quando analisamos o princípio da incerteza de Heisenberg³ (parte da Interpretação de Copenhague4), forma de entendimento utilizada pela física para interpretar fenômenos da mecânica quântica. A Interpretação de Copenhague atraiu uma série de críticas de celebres físicos, como Einstein e Schrödinger, devido a sua forte conotação não realista e não determinista, pois através de seus postulados, a realidade passa a se modificar, passa a ser criada por um processo de observação não físico. Tal inclinação positivista da Interpretação de Copenhague pode ser constatada em um dos trabalhos de Heisenberg:

De um ponto de vista muito geral, não há maneira alguma de descrever o que acontece entre duas observações consecutivas. É, certamente, tentador dizer que o elétron deve ter estado em algum lugar, no intervalo de tempo entre essas duas observações, e que, portanto, o elétron deveria ter descrito algum tipo de trajetória ou órbita, mesmo que seja impossível saber qual. Esse seria um argumento razoável na física clássica. Na teoria quântica, porém, teria sido um abuso de linguagem que, como veremos depois, não pode ser justificado […]. Se quisermos descrever o que ocorre em um evento atômico, deveremos compreender que o termo ‘ocorre’ pode somente ser aplicado à observação, e não ao estado de coisas durante duas observações consecutivas”³

Podemos constatar, portanto, que o positivismo, apesar de não influenciar de forma contundente a filosofia nos dias de hoje, ainda é fortemente empregado em outros campos do saber, em especial na mecânica quântica e seu esforço em adaptar a linguagem dos fenômenos, as expectativas laboratoriais. Para Bunge, tal forma de interpretação deriva do subjetivismo positivista, o qual defende a não existência da realidade objetiva, apenas aparências dos fenômenos para determinado observador.

Outra marca da forte tendência positivista nas ciências da natureza é o pragmatismo crescente de sua política científica, que em toda pesquisa desenvolvida possui, exclusivamente, motivos utilitários de rápida aplicação na sociedade e no mercado. Basta verificarmos a quantidade de grupos de pesquisa no campo da física da matéria condensada, por exemplo, se compararmos com o número de núcleos de cosmologia, história, filosofia, entre outras. Tal modo de pensar e fazer ciência, além de engessar o fazer científico, secundariza áreas das humanidades, tratando-as como dispensáveis para o desenvolvimento científico e social.

Diante de tantas problemáticas relacionadas ao modo de se pensar a ciência, Mario Bunge defende o hilorrealismo, forma de interpretação e entendimento da realidade proposta por ele com base no realismo científico e no materialismo. Segundo o autor, o hilorrealismo seria:

“O melhor modo de reforçar o realismo epistemológico é combiná-lo com o materialismo, produzindo o que se pode chamar de hilorrealismo. Assim, um hilorrealista admitirá uma teoria científica que coloca a existência de coisas previamente desconhecidas, embora estranhas ou ‘paradoxais’, desde que sejam bem confirmadas e não contradigam a massa de conhecimento base. ” 

No entanto, estariam estas inclinações idealistas presentes apenas na física e na matemática, ou também estariam se apossando de campos mais recentes, que buscam explicar características humanas, como emoções, pensamentos, etc?

cérebro.png

A neurociência é, cada vez mais, alvo de interesse da comunidade científica, e até mesmo do público menos especializado, por se tratar de uma ciência relativamente nova, interdisciplinar, e que tem gerado respostas que permeiam o imaginário humano há tempos. O âmago deste campo é tal que tem desbancado a física e sua presença quase que hegemônica no cerne das curiosidades que permeiam a sociedade. De fato, a neurociência traz à luz questões interessantes da psique humana e seu funcionamento. No campo da biologia, pode-se explicar certos aspectos de nossa estrutura (psicológica e anatômica), através da análise de reações físico-químicas do cérebro e seus desdobramentos. Tais estudos têm permitido o entendimento mais aprofundado de doenças de cunho neurológico, e permitido o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. Mas quais seriam suas limitações? Podemos restringir a complexidade humana a reações físico-químicas? Ou questões sociais e culturais também influenciam nosso desenvolvimento cognitivo? Bunge nos diz que:

“[…] muito embora todos os seres humanos, em todas as culturas, tenham nascido com cérebros similares, um e mesmo estímulo pode causar prazer em uma cultura e desprazer em outras. A experiência grava traços locais em cérebros universais. ”

Ou seja, questões sociológicas e antropológicas não podem ser descartadas na tentativa de compreensão da dinâmica do ser humano, pois o entendimento de nossa espécie (enquanto seres biológicos e sociais) só é possível ao considerarmos os imperativos sociais provenientes do meio o qual estamos inseridos. Portanto, para que não se caia em um neuroimperialismo (termo que constata uma forma de dominação e/ou controle, de um setor da sociedade por outro, através de vias econômicas, bélicas, culturais, etc), nos termos utilizados por Bunge, é necessária uma neurociência pautada nas bases materialistas da ciência, que busque entender nosso desenvolvimento cognitivo, mas que não despreze as contribuições importantes das ciências humanas, no entendimento do sistema social e seus impactos no desenvolvimento do indivíduo, enquanto parte deste sistema.

Como solução para problemas ontológicos e epistemológicos, Bunge propõe quatro pilares filosóficos que promoveriam o desenvolvimento científico racional progressista que atenda as demandas sociais, seriam eles: a lógica, a semântica, o materialismo ontológico e o realismo científico epistemológico. No entanto, no ano de 1942, Robert Merton, sociólogo norte-americano considerado um dos principais teóricos da sociologia da ciência de sua época, preocupado com o rumo que a ciência e o desenvolvimento tecnológico tomavam, propõe o que vem a se chamar ethos filosófico, que seriam normas que todo cientista deveria seguir, para que sua produção atenda às necessidades do desenvolvimento científico e gere tecnologias que beneficiem o desenvolvimento da civilização. O ethos filosófico consistia em quatro pilares:

Universalismo: os trabalhos científicos deveriam seguir padrões universais de avaliação e validação;

Comunismo ou comunalismo: toda produção de conhecimento seria de propriedade da humanidade e deveria beneficiar esta como um todo, não podendo servir assim de interesses privados;

Desinteresse: o objetivo do trabalho científico deveria servir somente à ampliação do conhecimento humano

Ceticismo: o cientista ou a cientista devem se privar de qualquer tipo de conclusão precipitada no desenvolvimento de seus trabalhos.

É de se imaginar que a ciência desenvolvida durante este período, até os dias atuais, não seguiu o ethos proposto por Merton, ao passo que o desenvolvimento de pseudociências e da ciência mercenária (nas palavras de Bunge), tem crescido e ocupado cada vez mais espaços, tanto no meio científico quanto no gosto popular. Portanto, seriam os pilares filosóficos propostos por Bunge, imunes a tal direcionamento? Como produzir uma ciência e filosofia que atendam as demandas sociais de forma progressistas, sem deixa-la nas mãos de interesses políticos e econômicos retrógados?

São questões como essas e tantas outras que Bunge debate ao longo de seu belíssimo livro Matéria e Mente, levando-nos a uma profunda reflexão do atual status quo da ciência e da filosofia atual.   

Mario-Bunge-Físico.jpg

 


¹BUNGE, Mario. Matéria e Mente. São Paulo: Perspectiva, 2017. 405 p. 25

²RODRIGUES, Weiller Vilela. Bohr e o princípio da complementaridade: Subsídios para materiais educacionais numa abordagem histórica. 2016. 62 f. Dissertação de Mestrado – CEFET, Rio de Janeiro. 2016

³Enunciado da mecânica quântica, formulado em 1927, que diz ser impossível medirmos posição e velocidade de uma partícula ao mesmo tempo.

4Conjunto de teses propostas por Werner Heisenberg e Niels Bohr, que buscam entender os fenômenos da mecânica quântica, de forma não determinista, ou seja, com este modelo teórico, a realidade seria “criada” por um processo de observação não físico,


MÉSZÁROS, István. Estrutura Social e Formas de Consciência: A determinação social do método. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 27 – 46.

SCHULZ, Peter A. Duas nuvens ainda fazem sombra na reputação de Lorde Kelvin. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 29, n. 4, p. 509 – 512, 2007

ZANETIC, João. Física também é cultura. São Paulo: USP. 1990. 145-166 p. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1990.

SANTOS, B. S. Da sociologia da ciência à política científica. Revista crítica de ciência sociais. Nº 1. Junho 1978, p. 11 – 56.


LEIA TAMBÉM

Anúncios

Um comentário sobre “Do Imaterial ao Material: A Influência do Idealismo Filosófico na Ciência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s