Um Presente Contra o Esquecimento

Com Tinta Vermelhapor Julia  Izumino

[Um estrondo]

Um estrondo: a

própria verdade

surgiu entre

os homens

em pleno

turbilhão de metáforas.

Paul Celan (1967)[1]

 

Na Hora Zero, a Alemanha, já quase em colapso, foi forçada a render todas as suas forças bélicas e a declarar sua derrota na Segunda Guerra Mundial. Quando o relógio bateu meia-noite no dia 9 de maio de 1945, pessoas foram às ruas de cidades destruídas e comemoraram a paz e a liberdade, enfim. O barulho do riso substituiu o barulho das bombas. Uma esperança refrescante prometia um recomeço, uma reconstrução dos países e das vidas, a abertura de um novo capítulo na história. O passado mais imediato poderia ser muito bem esquecido e superado, os esforços agora se resumiam em olhar para frente, seguir em frente.

Mas havia entulhos por todos os lados que não podiam ser ignorados. Cidades haviam se tornado ruínas, famílias estavam incompletas e mesmo a língua trazia agora cicatrizes. Descobriu-se que a memória podia ser tão cruel a ponto de não suportar ser dita e que, mesmo se forçada, deixaria no discurso lacunas intransponíveis. A própria verdade era indizível; e durante algum tempo, de fato, não foi pronunciada.

Homens e mulheres, sobreviventes, imediatamente procuraram tomar distância do nacional-socialismo, do que viveram, fizeram e viram, e se esforçaram em esquecer. Silenciados e silenciosos, não falavam de mortes, faltas, fomes; olhavam ao redor e contabilizavam o que restava. Escritores, neste momento, tomaram de volta suas canetas em punho e, investidos em vasculhar entre as ruínas, nomear o que continuava em pé e em construir algo no lugar do que havia sido destruído, começaram a produzir esta que foi chamada de Literatura dos Escombros.

Desafiadora porque persistente, esta literatura da segunda metade do século XX – que surge na Alemanha, mas logo se estende aos outros países também afetados pela guerra – tentava dar algum tipo de forma e sentido ao presente. Inevitáveis, as ruínas materiais e psicológicas atravessavam o texto literário e, surpreendentes, se estabeleciam neles como figuras ricas em significação e potência poética. Delineava-se uma ordem no caos. A falta de ar que antes impossibilitava a fala, os versos que então quedavam rompidos, construíam agora uma poética de ritmo único e sonoridade forte. E a língua, que quase não podia ser dita sem mostrar suas marcas e cicatrizes, começava a se reconstruir aos poucos, a partir do que havia ao redor e ao alcance, para então tomar força e se conjugar em formas antes inimagináveis, para escrever aquilo que apenas a guerra fora capaz de produzir.13 [desenho Bandhuber]

Décadas correram. Ainda nesta metade de século, toda a Europa viveu e assistiu profundas transformações geográficas, políticas e identitárias. Novos assuntos e crises enchiam os jornais e novas questões ocupavam agora o imaginário e a sensibilidade das pessoas. A vida seguia. E aquela guerra ia ficando cada vez mais no passado, cada vez mais distante e sem ruído.

Não se falava mais da dor e nem dos que a infligiram; não se pensava em culpa. Pensava-se que os corpos, lares e cidades foram vítimas da  História, imperdoável algoz, que havia cegado os homens e os lançado, indefesos, nas garras daquele momento. E enquanto a lembrança calava na boca destes homens, o passado se tornava uma abstração, difusa e enevoada, movediça e lacunar.

O que só viria a se compreender mais tarde, porém, é que aquela dor, a de ser vítima, é hereditária. E por mais que se tente ignorá-la, ela sempre dói. Os filhos da guerra, dos que emigraram, fugiram ou foram mortos, conheceram no berço a falta que faz – não ter uma origem, uma história. Ganharam de herança a perda e, desenraizados, até se tornaram apátridas em suas próprias terras natais. Silenciados pelo silêncio de seus pais, guardaram as dúvidas que os consumiam e sentiam-se nostálgicos por um tempo que não viveram, mas que, pensavam, havia sido melhor.

Impulsionada pela queda do muro de Berlim, já perto do fim do século, surgiu na Europa a consciência da necessidade premente de se revisitar a História. Diferente daqueles que haviam vivido a Hora Zero, que buscaram no presente um solo firme para seguir em frente, uma nova geração entendeu que apenas a partir da construção de uma memória coletiva e sólida do passado é que se poderia compreender o presente, para então pensar o futuro. Tomaram para si a responsabilidade de descobrir e reconstruir as vidas e verdades que quedaram perdidas e esquecidas em brechas obscuras. Olharam para trás e, principalmente, para dentro. Abriram os baús dos seus pais e avós, descobriram arquivos e coleções que guardados cuidadosamente através dos anos, talvez numa tentativa consciente de, apesar da impossibilidade da fala, não entregar a lembrança completamente ao esquecimento. Autobiografias e textos memorialistas começaram a surgir nas livrarias, de descendentes e órfãos da guerra que procuraram provas e evidências dos caminhos percorridos e dos segredos guardados, para criar uma narrativa particular e coesa que desse àquele passado abstrato uma, substancialidade mais acalentadora, que desse feições e nomes próprios às vítimas e, ainda mais, aos culpados da história.

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Mas lançar-se a esta busca não é nada fácil. Entregar-se ao passado muitas vezes se confunde com abdicar do presente. Foi necessário aprender a fazer as perguntas certas, e entender que algumas delas simplesmente não têm respostas; foi preciso seguir por caminhos escuros, para só depois descobrir que não havia luz alguma do outro lado. Para reconstruir a história foi preciso inventariar os vazios – os documentos, os registros, os objetos, as pessoas que faltam – para só então tentar amarrar as partes existentes em alguma ordem suficientemente lógica.

Em meio a este espírito do tempo contemporâneo, entre centenas de produções literárias e cinematográficas dedicadas a descobrir segredos e a recontar a História, temos a sorte de encontrar, de vez em quando, obras esteticamente refrescantes e de especial sensibilidade. Com Tinta Vermelha, a primeira narrativa literária de Mireille Abramovici, tenta reconstruir o percurso de seus pais – judeus romenos emigrados em Paris – durante a Segunda Guerra; Com Tinta Vermelha é um dos raros relatos autobiográficos que conseguem manter o equilíbrio muito sutil entre o que há de trágico e doloroso e o que há de bonito e catártico em revirar um passado tão pessoal.

Logo no começo do seu livro, de uma forma até que pragmática, ela nos explica seu projeto: quer operar um resgate da memória de sua família, para além do horror e da tristeza, para achar a verdade das circunstâncias em torno da perseguição e morte do seu pai, Isaac Abramovici, pelo regime nazista. Absolutamente consciente da sua inexperiência e vulnerabilidade, do fato de que más recordações podem tomá-la a qualquer momento, ela decide que tem apenas uma forma de levar esse plano adiante:

“… agarrar-me às pequenas coisas, aos detalhes minúsculos, inspecionar, fuçar a História, ir aos lugares, colar de novo os pedaços e me deixar arrastar pelo que vou descobrir.”(p.12)

Pelo que Abramovici compreende, é possível que sua família tenha sido vítima de um erro de registro da burocracia nazista – e que o único crime que seu pai de fato cometeu foi ter nascido judeu na Europa do século XX. A arbitrariedade do sistema, a cegueira e a crueldade do antissemitismo se comprovam na crueza dos relatórios e documentos oficiais que ela encontra em suas pesquisas em arquivos e instituições francesas, alemãs e romenas. Não à toa, isso faz com ela duvide dessas versões e prefira a outra verdade, aquela que é mais verdadeira, única e pessoal, que ela consegue construir a partir do que as pessoas se lembram aos poucos e lhe contam, do que ficou registrado, mesmo que inadvertidamente, em letra cursiva, em cartas e registros pessoais.ComTintaVermelha_3D_P32

Munida das fotografias que restaram e da correspondência de toda a sua família – entre seus pais, amigos e os parentes que ficaram na Romênia durante todo o período da guerra – Abramovici tenta organizar uma cronologia e uma geografia particulares. Então, viaja para as cidades onde sabe que seus pais se refugiaram, reencontra antigos conhecidos com quem compartilharam momentos de espera e de medo, visita os prédios e as casas onde estiveram, pisa o chão que eles um dia pisaram – e tenta imaginar o que foi a vida e o amor que eles gestaram em tempos tão sombrios.

Sua narrativa toma a forma de um diário de viagem, espacial e temporal, com descrições muito vívidas dos lugares que visita e comentários íntimos e reveladores de suas angústias e sonhos. A forma das frases curtas e sintéticas, sem muitas orações subordinadas, cria sequências ágeis de imagens de cores e contornos muito nítidos, forjando uma escrita sinestésica e altamente visual que com certeza deve muito à trajetória da autora no cinema. Aquele passado que repousava sob silêncio vai sendo atravessado pela música que o pai violinista tocava e que a mãe pianista acompanhava.

Para tentar dar vida aos seus mortos, se coloca lado a lado a eles – se transforma por vezes, ela também, em uma personagem na sua própria narrativa. Tudo o que aconteceu, as palavras e olhares que um dia trocaram, os lugares que habitaram, todos os mínimos detalhes são imaginados e descritos com precisão e no presente da narração. (Re)cria uma versão da história e torce para que tenha sido assim. Confunde passado, imaginação, presente e real. Constrói e desconstrói versões de verdades em um piscar de olhos. Aos poucos, relato, memória e ficção se embaraçam de modo indestrinçável.

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Isaac e Sylvia Abramovici

Neste misto de biografia e autoficção, o Tempo bagunça as gerações e faz com que a filha se torne responsável por zelar da vida dos seus antepassados. Abramovici, que, ao ler as cartas e diários de seus pais,deparou-se com as promessas que fizeram e os sonhos que tiveram, descobriu uma esperança quase ingênua, um enorme esforço pelo otimismo que deixou que subestimassem o que os esperava. Aos poucos, ela se torna quanto mais consciente que nunca conseguirá alertá-los sobre o perigo, tirá-los da linha de fogo. Esforçando-se para trazê-los à vida, percebe que no mesmo passo em que se aproxima da verdade, aquela mesma que procurava, mais certeza e concretude dá ao fato final e inalterável: seu pai existiu, viveu, e foi perseguido e morto pelo regime nazista.

Por isso mesmo, às vezes vacila. Pensa em desistir, se cansa, se esgota. Nos conta da dor, da raiva e do rancor que a acompanha. Ao fim e ao cabo, vasculhar o passado e reconstruir as vidas dos seus pais é uma forma de descobrir sua origem, definir de onde veio. A procura pelo outro acaba por se tornar uma pela própria identidade, por se fazer pertencer ao mundo. Mas quando a história fecha seu cerco de possibilidades e as distâncias se revelam intransponíveis e muito tempo já correu e levou consigo os corpos, os gestos, os olhares, os cheiros… tudo o que resta é um desenho rasgado do passado.

Mireille Abramovici ainda tem fôlego, porém, apesar de tudo. Consegue algum tipo de acalanto e encerramento. Sabe que o nome de seu pai está inscrito em memoriais e museus da Shoah e, então, está definitivamente salvo do apagamento dos arquivos. Guarda consigo um pouco da terra do campo lituano onde seu pai foi fuzilado e, assim, consegue algum tipo de enraizamento. Ajudou a cimentar mais alguns tijolos neste trabalho de construção da memória coletiva da Segunda Guerra, contra o apaziguamento das responsabilidades e do esquecimento da dor de todo um povo. E por fim, apesar de não ter podido protegê-los do sofrimento ou mudar suas trajetórias, sabe que conseguiu, com o seu fio de tinta, eternizar a história de amor e resiliência de seus pais, juntos, em uma narrativa vivaz, íntima e tão humana.


11427719_1583371635257779_5008808323011339427_nMireille Abramovici faleceu em outubro de 2016, logo após a publicação de Com Tinta Vermelha, sua primeira narrativa, que reconstitui a chegada do pai a Paris, nos anos de 1930, até 1944, quando o último comboio nazista o levou para a morte. Ele e a esposa, sempre que separados, trocaram intensas correspondências que inspiram a narrativa, impactante evocação das fugas, do amor, das perseguições e da música.

Em grande operação estética, ela retrabalha o mesmo material e o mesmo sofrimento numa outra linguagem: a da literatura.

A equipe da editora Perspectiva lamenta a perda desta importante documentarista, escritora e professora.

 

 

 


[1]FONSECA, C. F; CELAN, P. Poemas de Paul Celan (1920-1970). Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo, nº 4, p. 13 – 49, 2001.

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