Revoluções Estéticas: Maiakóvski e Khlebnikóv 100 Anos Depois

Lucas Bento Pugliesi

Cem anos depois não convulsionamos ao redor da ideia de uma revolução. O próprio conceito de revolução tornou-se ambíguo, mesmo entre aqueles que antes o reclamavam. “Uni-vos”, mas há “proletários” e “proletários”.

1917 abalou o mundo como uma promessa efetivada, mas essa não foi a única radical transformação na ordem do sensível que a Rússia trouxe ao ocidente naquele momento. Os jovens (anti)intelectuais que se alimentaram e retroalimentaram a revolução inventaram uma total reorganização dos lugares discursivos, tornando visíveis questões até então latentes no que concerne a violência dessa estranha instituição chamada “literatura”.

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Páginas da edição Dliá Gólossa, de Lissítzki, para poemas de Maiakóvski (Berlim, 1923)

Para criar uma oposição falsa, de um lado apareceram os formalistas, cuja metodologia analítica contribui para pensar um caminho científico para a literatura, agora definitivamente separada do campo das “belas letras”. Nesse sentido, contra o valor estético do “belo e do sublime”, Chklóvski e amigos propunham o efeito de “estranhamento”, a “literariedade”, a especificidade do campo entre outros.

De outro lado, o grupo heterogêneo dos futuristas que abarcou nomes como de Khlebnikóv, Maiakóvski e Ossip Brik que, de uma forma ou de outra, comprometeu-se a devolver a poesia ao povo, bagunçar os liames entre lírica e prosa, entre arte e vida; reclamar uma liberdade, mas uma liberdade racional, pragmática, nos dizeres de Maiakóvski:

[…] a criação de regras não constituí em si a finalidade da poesia, senão o poeta se tornará um escolástico, que se exercitará na formulação de regras para objetos e teses inexistentes ou desnecessários. Por exemplo, não há razão para se inventar regras para a contagem de estrelas sobre uma bicicleta em alta velocidade

É preciso criar regras novas na medida em que as regras antigas não falavam a todos e sobre tudo. Curiosamente, a crítica do século XX esforçou-se em separar essas facetas; teoria e prática; mas na prática a teoria é outra, como nos ensinou o próprio Marx, e dessa forma os grupos interpenetraram-se, caminharam juntos em seu dissenso, com a certeza bárbara da existência de uma “literatura”.

Maiakovski
Maiakóvski declamando seus poemas (série de fotos tiradas em 1928, por A. Tamerin).

O conceito de “literatura”, inclusive, foi muito bem esboçado pela consciência crítica de Maiakóvski, poeta, cujo pensamento foi por tantas vezes desprestigiado:

Durante quase cem anos, os escritores, amarrados entre si pelo mesmo tipo de vida, falavam com as mesmas palavras. A noção de beleza deteve-se em seu crescimento, rompeu com a vida e se declarou eterna e imortal. E eis a palavra como fotografia apagada de uma propriedade rural tranquila e rica. Ela conhece as regras obrigatórias da decência e do bom tom flui sensata e harmoniosa, como uma berceuse

Para um mero “produtor”, avesso à teoria, a concepção histórica da escrita estética de Maiakóvski parece bastante madura: dialeticamente entende que enquanto os fazeres se mantiverem atrelados às velhas posições “rurais”, “tranquilas” e “ricas” dificilmente irromperá dali o novo; as velhas posições serão conformadas por uma literatura que as serve, por vassalagem. Nesse sentido, a arte de Maiakóvski é intervenção, seus textos irônicos, precisos, matemáticos, fazem irromper a todo tempo, por necessidade (e nunca por deleite), o novo, reorganizando o sensível e o próprio conceito de arte.

Cem anos antes de nós, Maiakóvski se deu conta de que a arte, como a concebemos, só é possível a partir do momento que abarca tudo aquilo que não é artístico. Numa revolução extensa, molecular, iniciada, justamente, quando o representável passou a abarcar o interdito.

Maiakóvski só escreveu sobre interditos, rasurou paulatinamente tudo que havia se escrito, em prol de poemas cirúrgicos, herméticos, que continham em si as “regras” para um modo de usar – antecipando Gramsci, nos fala também da importância de se usar da publicidade para subverter a ordem.

E mais, se pensarmos no contexto russo de um simbolismo ortodoxo místico, metafísico e transcendente, antecipou também Foucault – “Os redatores conhecem apenas o “gosto” ou “não gosto” e se esquecem de que o próprio gosto pode e deve ser educado”: desponta do trecho uma radical arqueologia da compreensão do belo, do modo como a condição sócio-histórica foi tomada como natural.  Não à toa, recusa-se a substantividade passiva de uma “literatura”, quer-se criar outra e, efetivamente, cria-se.

Mas me equivoco. Maiakóvski não antecipa ninguém, há sempre muitos tempos em um tempo e seus dizeres “rudes” talvez não fossem adequados a nossa sensibilidade neurastênica de letrado. Na espiral de sua poética – que inclui poesia e prosa, teatro e ensaio, autobiografia e sátira – deu-nos lição valiosa que ainda precisa ser assimilada e agora, uma vez mais, faz-se disponível graças a edição da Perspectiva do trabalho de tradução e comentário dos textos “críticos” de Maiakóvski, levado a cabo pelo já saudoso Boris Schnaidermann.A Poetica de Maiakovski [D039]

A organização do livro traz interesse ao carregar um risco, àquela altura (o longínquo 1971), de propor a importância da argumentação intelectual do poeta frente à radical disparidade de opiniões manifestadas em seus diversos fragmentos, trechos, comentários, manifestos e piadas.

De certa feita, o trabalho de Boris realiza o programa de Maiakóvski: a poética do autor confunde-se com a vida. Não à toa, os trechos biográficos (contra qualquer psicologismo burguês, é claro) trazem muito da produção e da reflexão desse transgressor.

Em das mais belas passagens do livro, o futurista elogia seu mestre, aquele que é uma espécie de Alberto Caeiro eslavo, Velimir Khlebnikóv. O texto, ao contrário da expectativa, propõe um doloroso e afirmativo apagamento: “Abandonem, finalmente, a veneração por meio dos jubileus centenários, a homenagem por meio das edições póstumas. Artigos sobre os vivos! Pão para os vivos! Papel para os vivos!”

Lembra ainda o quanto esse Khlebnikóv, místico, egiptólogo, pouco teve de autor em vida, imerso entre caóticos ciclos de papéis impublicáveis que, num esforço, eram salvos do esquecimento pelos amigos preocupados. O mesmo Khlebnikóv que fortuitamente ganha reedição pela Perspectiva que traz a novos leitores a experiência de leitura igualmente revolucionária de Ka.

Ka (S05)

Ka é de um lado a própria revolta dos futuristas, a cuja teorização aludi. É um conto exageradamente longo para ser conto, desenfreadamente ritmado para ser prosa, mas causticamente prosaico para ser poesia. Um “canto”, como gostaria Haroldo de Campos.

A palavra “canto” é particularmente válida porque por muitas vias Ka é um épico: coloca-se em suspeição por todo canto o conceito de tempo, prefere-se a espacialidade do objeto a partir de uma estrutura de pensamento analógica que, como quiseram alguns, irmana-se a um Joyce, de um lado, mas, curiosamente, também das concepções metafísicas de Agostinho de outro: “Aconchega-se comodamente nos séculos, como numa cadeira de balanço. Não é acaso verdade que também a consciência reúne os tempos juntos, como a poltrona e as cadeiras da sala de visita?” Contra a melancolia da modernidade – para essa geração destruir implica também edificar –, Khlebnikóv resgata esse tempo antes do tempo – que é de um lado o antigo Egito, de outro o tempo do sábio do ano 2222, mas também da cosmovisão dos esquimós –, em vias de produzir um epos. Perdoem o grego, o que quero me referir é esse tipo de construção fictícia de caráter ritual que assegura em si os valores da comunidade, os valores de verdade, a radical não-ruptura entre consciência e mundo. O problema para nós leitores, pobres desinformados que acreditamos em “gosto”, é que os valores que Ka codifica e atualiza são tudo, menos óbvios. O canto apresenta-se como um enigma de um mundo porvir: como nos esclarece as notas da tradutora Aurora Bernardini, Ka pode ou não ser uma referência a esse duplo que na assumida religião egípcia, seria deixado para traz no momento da morte.

Ka
Gravura/Retrato de Khlebnikóv

As aventuras sobrenaturais de Ka se desenvolvem, como a Ilíada ou a Odisséia, a partir dos mecanismos identificados por Aristóteles, o enredo, a peripécia, o reconhecimento, a sanção. O problema é novamente a condição de leitura: os ouvintes da Ilíada certamente sabiam de antemão o significado das palavras-verdade que ouviriam; nossos ouvidos são surdos a verdade de Ka, é preciso ler suas entrelinhas, desvendar suas analogias, propor intervenções para que esse vértice do experimentalismo possa assumir sua missão e moldar uma nova sensibilidade, fundar um novo tempo.

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Capa do livro de poemas Pro Eto (Disto), de Maiakóvski. Criação de Ródtchenko (1923)

É certamente um livro difícil, pouco lido – Maiakóvski faz piada acerca dos 100 leitores de seu mestre –, contudo, faço minhas as palavras do discípulo mais notável de Khlebnikóv: “Mas se um livro é endereçado a uns poucos como a energia de Volkhovstrói se dirige a umas poucas estações transmissoras, para que essas subestações distribuam pelas lâmpadas elétricas a energia reelaborada, semelhante livro é necessário”.

Recuso efetivamente a negação do potencial do livro de antemão, sua construção labiríntica é a própria pragmática desse futurismo que, como tento propor, instaurou uma revolução no sensível, retirando a hegemonia da poesia daqueles proprietários ricos, de modo a fazer brilhar, difusamente, as lâmpadas da democracia aqui e ali. Uma democracia sempre por vir, bastante elusiva em tempos como o nosso (mas talvez ainda mais num tempo como o deles).

Khlebnikóv e Maiakóvski, mais uma vez acessíveis para os leitores brasileiros, parecem ter conduzido uma revolução menos barulhenta, mas mais profunda no modo como nos relacionamos com a leitura. O filósofo argelino Jacques Rancière afirmou que “Leaves of Grass” de Walt Whitman foi muito mais importante para a Revolução de 1917 do que o Manifesto do Partido Comunista; pois bem, categoricamente a poética do futurismo é deveras mais importante para essa revolução por vir (virá?) do que qualquer vã teorização que tomou forma nesses cem anos, especialmente àquela que empreendemos, nós, letrados.

Montagem
Fotomontagem de Ródtchenko para o livro Pro Eto (Disto)
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