Todo sexo é explícito?

Todo sexo é explícito? Como o cinema o representou por meio de diferentes propósitos narrativos, estéticos e políticos? Onscene, fora de campo, implícito, reprimido, estilizado ou imaginado, quais discursos foram elaborados para a deflagração do sexo cinematográfico? Da pornografia silenciosa às vanguardas, do underground às pornochanchadas, de Luís Buñuel a Pedro Almodóvar, de Andy Warhol a John Waters, de Pier Paolo Pasolini a Lars von Trier, de Jean Cocteau a Kenneth Anger, de Nagisa Oshima a Catherine Breillat, de Bruce LaBruce às pornografias alternativas, como os cineastas abordaram o sexo para além da elipse narrativa que o sublima para a cena do café da manhã no dia seguinte?Por quais sentidos culturais e ideológicos trafegam as estilizações do sexo no cinema? O que estamos chamando de sexo? A representação explícita do sexo é pornográfica, transgressora? Qual a função política da obscenidade?

Falar de sexo e representá-lo em imagens, ainda que mediante representações limitadas às instâncias morais e ao poder simbólico das obscenidades das épocas, permite ao espectador a construção de um imaginário pornográfico, uma forma de pensar, ver e conceber as práticas sexuais por meio da fantasia em torno dos desejos. Assim, percorremos influências teóricas que conversam, na maioria das vezes, entre si. Pelo fato de o trabalho abordar questões relacionadas às representações do sexo, o eixo teórico expande-se para outras áreas além das teorias do cinema, como alguns estudos filosóficos e sociológicos que aprofundaram a crítica das relações entre sexo, sexualidades e sociedade. A começar, o estudo da história da sexualidade, ampliada por Foucault, fornece bases para o entendimento do dispositivo da sexualidade através de discursos, de saberes, do poder, da confissão, da arserotica (arte erótica oriental) e da scientiasexualis (a ciência sexual ocidental). Ensaístas e escritores têm suas reflexões e seus conceitos aqui utilizados por terem introduzido novas percepções em torno da imagem/imaginação pornográfica, por exemplo: Susan Sontag, Lynn Hunt, André Bazin, Linda Williams, Dave Thompson.

 

 

 

A obra traz um mapeamento histórico-crítico dos filmes e movimentos cinematográficos mais significativos nesse sentido, aqueles que flertaram com o pornográfico a partir da representação explícita do sexo em tramas e abordagens narrativas não necessariamente focadas somente no intercurso sexual, como nos filmes pornográficos tradicionais. A abordagem aproxima-se da lógica foucaultiana que percebe o discurso legitimado e em construção sobre o sexo e as práticas sexuais. No cinema, a percepção do que é sexo, bem como daquilo que é tido como “explícito”, esbarra nas construções políticas do desejo e suas representações visuais mutáveis de acordo com os níveis de obscenidade e apropriação do real em diferentes contextos. Assim, o termo “sexo explícito”, pensado em sua representação cinematográfica, traz também imbricações sobre o que é “sexo” e “explícito” — tendo em vista a construção histórica que o modela e o classifica como pornográfico.

 

Skin Gang (Bruce LaBruce)

“Pois, o “sexo” não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa, isto é, toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir — demarcar, fazer, circular, diferenciar — os corpos que ela controla. Assim, o “sexo” é um ideal regulatório cuja materialização é imposta: esta materialização ocorre (ou deixa de ocorrer) através de certas práticas altamente reguladas. Em outras palavras, o “sexo” é um constructo ideal que é forçosamente materializado através do tempo. Ele não é um simples fato ou a condição estática de um corpo, mas um processo pelo qual as normas regulatórias materializam o “sexo” e produzem essa materialização através de uma reiteração forçada destas normas.”

 

Butler, Corpos Que Pesam: Sobre Os Limites Discursivos do “Sexo”, em G.L. Louro, (org.), O Corpo Educado, p. 24–25

Fora da área acadêmica, no universo cinematográfico, o olhar pornô diante do mundo foi mais bem aceito por cineastas autorais e intelectuais de imagens, como Pasolini, não apenas como referência estilística, mas como linguagem. Man Ray, Luís Buñuel, Salvador Dalí, Jean Genet, Kenneth Anger, Andy Warhol, Pasolini, Barbara Hammer, Catherine Breillat, Lars von Trier, Pedro Almodóvar, John Waters, GreggArakki, Derek Jarman, Jean-Claude Brisseau, Erika Lust, Antonio da Silva, David Cronenberg, Bruce LaBruce, TravisMatthews — entre tantos outros e outras cineastas flertaram com uma visão estilizada do sexo, por meio do pornográfico, mas para além do discurso unilateral produzido pela pornografia tradicional. Em outras abordagens possíveis, das pornografias alternativas ao cinema explícito contemporâneo, o pornográfico é experimental no discurso e na estética: visa mais a potencialização do desejo imbuído na trama e na miseenscène, do que somente (e necessariamente) a excitação do espectador. Busca ainda, com a imagem explícita do sexo, angariar um discurso transgressor ao status quo, seja pelo escândalo da performatividade imagética, seja pela contextualização de resistência política via obscenidade. É significativo que, muitas cinematografias, inclusive o cinema brasileiro contemporâneo, estejam angariando novas ousadias estéticas como criatividade estética e, fundamentalmente, como luta libertária contra o discurso disciplinar e normativo, das artes ao conservadorismo religioso. Muito do discurso sexual expandido no circuito alternativo atual, seja via tramas libertárias ou novas estéticas de representação do sexo, especialmente no cinema queer, proporciona com sua deflagração do sexo, uma forma eficaz que dinamita o moralismo das imagens legitimadas no mainstream.

 

“De certa forma, eu posso ser considerado antipornô. É um pornô que tenta destruir o pornô. Mas isso tem um preço. Como um pornógrafo, fui marginalizado, o que fez com que se tornasse difícil eu me manter. Ao mesmo tempo, eu sou odiado pelos círculos pornôs tradicionais.”

Bruce LaBruce

The Misandrist (Bruce LaBruce)

“Com estética experimental, poética e de impacto, a inquietação e o êxtase sexual estavam em jogo numa narratividade guiada pela superfície, pelo simulacro irônico da realidade, cujos sentidos verticais, políticos, eram criados pela sensorialidade do espectador. Os filmes traziam a performatividade da realidade de modo irreverente, delirante. As diversas camadas e relações eróticas que os filmes criavam transpareciam uma atmosfera libertária do desejo que ia um tanto além da sociedade disciplinar, de controle.”

R. Gerace


O AUTOR

Cinema Explícito é o produto do doutorado de Rodrigo Gerace, pela Universidade Federal de Minas Gerais. O autor estagiou na Universidade Nova de Lisboa/Portugal e possui Mestrado em Artes Visuais, que gerou a tese O Cinema de Lars von Trier: Dogmatismo e Subversão. Formado em Ciências Sociais pela UNESP, atualmente é pesquisador, crítico e professor.


Cinema Explícito é um dos mais completos estudos em língua portuguesa sobre as representações cinematográficas do sexo, dos stag films no cinema mudo às vanguardas artísticas, das pornografias alternativas ao mainstream à estilização do sexo no cinema de autor, que politizou e escandalizou o desejo por meio de narrativas ora transgressoras e libertárias, ora confinadas em discursos normativos sobre sexo. Para tanto, são aqui revistos criticamente os conceitos de obscenidade, pornografias e erotismo em face dos seus efeitos morais (cambiáveis por censuras e tabus), estéticos e ideológicos (pelos discursos em torno da imagem do sexo e do corpo), que dinamizam diversas possibilidades de representação e questionamento. Assim, no amplo panorama descritivo e analítico o tema, Rodrigo Gerace faz perceber como as representações cinematográficas potencializaram os dilemas de cada época, provando que as imagens, das mais desfocadas às mais explícitas, são capazes de fascinar, incomodar e desestabilizar discursos, seja visualmente, por meio da cinefilia voyeurística, seja no âmbito performático e político do sexo.

 

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