Clássico Renascido

Quando Friedriech Hölderlin, o grande poeta romântico alemão, traduz Antígona, de Sófocles, guia-se pelo pensamento mítico-trágico, oferecendo, na interpretação de Kathrin Rosenfield, uma leitura sui generis e de incrível conhecimento histórico e antropológico.

Em trabalho de reconstituição do método tradutório, a obra analisa elementos como ritmo, som e sentido, evidenciando a originalidade e extensão da tradução do poeta alemão. A versão de Hölderlin transcende leituras canônicas e mantém-se fiel ao original grego – embora num sentido mais amplo. Procura esclarecer o paradoxo trágico de Antígona, adicionando detalhes lúgubres aos versos que fazem da personagem homônima uma heroína surpreendente.

Entendida como desleal ao intento de Sófocles, a tradução de Hölderlin ganha nova defesa nesta publicação, que intercede pela modernização do texto e pelo realce do que já havia de inovador no imaginário clássico



A visão de Friedriech Hölderlin foi, à época, repetidamente diminuída e por vezes considerada dúbia, intervenção indevida que alteraria o texto original. Até hoje, muitas vertentes críticas acreditam que a tradução de Hölderlin traz estranhezas pontuais que alterariam o espírito de Sófocles. Mas a autora Kathrin H. Rosenfield  mostra que as alterações aparentes fazem parte de estruturas metafóricas e imaginariás gregas. A importância do texto de Hölderlin jaz na possibilidade de releituras que acarretam inovações no plano, não só ético, como também ao nível do enredo. Nas entrelinhas aparece um drama de intrigas e rivalidades entre o velho clã monárquico e o novo espaço da polis, e com ele, todo o plano psicológico de velhos traumas silenciados e de violências “esquecidas” que assombravam as mentes como os espectros de Micenas.

 

A Lucidez Trágica de um Tradutor Pioneiro
As traduções das tragédias de Sófocles fazem parte da vida trágica do jovem poeta, cujo nome tornou-se sinônimo do “espírito dos gregos”. Entusiasmado pela beleza das traduções de Homero por H. Voss (o pai do crítico de mesmo nome que iria ridicularizá-lo pelas suas versões), ele investiu na releitura de Sófocles toda a sua sensibilidade poética e toda a sua perspicácia teórica. A recepção negativa pelo establishment de Weimar, liderada por Schiller e Goethe, destruiu a esperança de mediar uma visão mais “vivaz” da Grécia antiga, e parece ter precipitado a queda de Hölderlin na loucura. Voss julga as traduções com aparente objetividade imparcial, porém do alto dos preconceitos, hoje risíveis, de sua época. Defende, por exemplo, a convicção de os poetas trágicos serem exemplos de um pensamento “claro” e “racional”, que se expressaria através das “figuras divinas determinadas com nitidez” e inteligíveis para o “senso comum”. Quem conhece as sutis complicações do pensamento mítico, reveladas pela antropologia moderna, só pode dar de ombros diante de tais pretensões ingênuas. Do ponto de vista prático, entretanto, foi um erro trágico do jovem poeta contrariar essa visão estreita da tragédia. A abordagem revolucionária lhe custou reconhecimento e apoio na cena literária, por sublinhar, mais de meio século antes de Nietzsche, a imensa distância que separa a mentalidade cristã (e civil-burguesa) da lógica da poesia clássica, que é tributária ainda de um imaginário mítico arcaico. A descoberta dos resíduos míticos correndo nas entrelinhas da razão clássica chocou os adeptos do classicismo de Weimar, pouco dispostos a refletir sobre a situação sempre “torta” das traduções, que precisam navegar entre línguas, culturas e épocas – como alerta Hölderlin nas suas Observações (AA, 3, 921). Sua versão enfrenta com lucidez o dilema de estarmos “condenados a utilizar as categorias da nossa cultura para examinar os fenômenos de uma civilização alheia”, e o poeta sabe que a fidelidade ao original recupera-se apenas na “conexão superior”, que medeia entre línguas e visões particulares. Por isso, não teme alterações superficiais, desde que essas realcem sentidos relevantes do original.



 

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KATHRIN H. ROSENFIELD é graduada pela Sorbonne Nouvelle-Paris 3, com mestrado na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales e doutorado na Universidade de Salzburg. É professora titular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua em áreas como estética, psicanálise, filosofia e literatura brasileira. Em 2000 criou o Núcleo Filosofia- Literatura-Arte, que desenvolve as relações entre pesquisa acadêmica, criação artística e comunicação com a sociedade. É autora de Desenveredando Rosa (Topbooks), que lhe rendeu o prêmio Mario de Andrade, e Grande Sertão: Veredas – Roteiro de Leitura. (Topbooks)

 



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