Nova Percepção de Antigos Conceitos

Aos interessados pelo desenvolvimento da teoria econômica e reestruturação de paradigmas vigentes,  Nova Economia Política de Serviços propõe uma discussão sobre o caráter produtivo das atividades econômicas de serviços. Inicialmente consideradas não produtivas e até complementares, hoje os sinais foram invertidos, em virtude do destaque e da importância que o setor terciário adquiriu. Em sua nova publicação, Anita Kon demonstra como os serviços mudaram de figura com o desenvolvimento da economia.

 

 

O entendimento sobre o papel das atividades de serviços no contexto de transformações das sociedades suscitou controvérsias e debates sobre suas conceituações, características e funções. Os serviços permeiam todas as atividades humanas: tangíveis e intangíveis; sociais, econômicas e governamentais; de produção e consumo; públicas e privadas; de trabalho e lazer; agrárias e industriais; locais, regionais e mundiais.

Tendo em vista a natureza de sua realização, em que a simultaneidade entre sua operacionalização e consumo lhes confere uma característica de imaterialidade e de aparente não durabilidade, os primeiros estudos econômicos sobre seu caráter produtivo ou não produtivo, concluíam que estas atividades eram apenas complementares às agrícolas e industriais, não implicando em geração de valor.

 

Por outro lado, o progresso tecnológico que se fez sentir em todas as atividades desde os primórdios da humanidade ̶ através da acumulação permanente de novos conhecimentos científicos ou adquiridos pelas experiências do cotidiano  ̶  resulta da busca de novas soluções para as questões momentâneas das sociedades em constante transformação. Nas atividades de serviços este avanço resultou na necessidade de gradativas reformulações, como forma de adequação aos novos paradigmas que visavam a resolução das crises periódicas de sobrevivência e de desenvolvimento humano.

A intensificação e o aumento da velocidade das mudanças de paradigmas tecnológicos e ainda mais do conhecimento intangível, mostrou nitidamente o crescente papel dos serviços no ambiente global das demais atividades. A visão  ̶  vigente por muitos séculos  ̶  de que este crescimento, no âmbito do processo de desenvolvimento da economia e da sociedade, era complementar e induzido pelas atividades industriais, foi posta à prova diante da percepção da força indutora dos serviços cada vez mais patente neste ambiente desde a segunda metade do século XX.

 

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Particularmente durante as duas décadas iniciais do século XXI, turbulências e crises consideráveis abalaram os paradigmas econômicos e sociais vigentes, bem como as condições geoeconômicas do desenvolvimento da economia mundial. Como consequência, novas abordagens, concepções, conceitos, tipologias e pesquisas empíricas sobre o papel das atividades de serviços neste contexto tem sido objeto de estudos e tema de publicações internacionais. Instituições internacionais como o Banco Mundial, a OCDE, a Organização Internacional do Trabalho, a Organização Mundial de Comércio Exterior, entre outras, já há algum tempo observam a relevância da área de serviços no contexto socioeconômico e incluíram em seus temas de pesquisa discussões teóricas e análises empíricas sobre a questão.

No Brasil, o tema apenas recentemente passou a ser mais discutido e pesquisado, no entanto a literatura nacional ainda carece de obras mais atualizadas. O 1º Simpósio Brasileiro de Ciência de Serviços realizado em 2010 em Brasília foi a primeira iniciativa mais ampla e efetiva de um grupo de estudiosos brasileiros de discutir estas questões no país, com a proposta adicional de organizar uma Comunidade Brasileira de Ciência de Serviços, com especialistas das diversas áreas do conhecimento que se dedicam à pesquisa destas atividades, como ponto de partida para a consolidação de uma organização permanente capaz de promover a discussão sobre a Ciência de Serviços no Brasil. A realização deste evento permitiu também, o primeiro encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha de Pesquisa sobre Serviços (REDLAS), que foi criada contando com o apoio da Rede Europeia de Pesquisa em Serviços (RESER).

 

Dessa forma, à medida que o setor de serviços, impulsionado pelos vetores de ciência, tecnologia e inovação se expande na economia global e brasileira, através de sua interação com a indústria e a agropecuária para a criação de valor e de riqueza social, cresce a necessidade de se estudar os serviços de uma forma mais profunda e abrangente. Os serviços têm se tornado crescentemente intensivos em conhecimento e responsáveis por fornecer insumos para a inovação na produção das demais atividades sociais e econômicas, desde que o setor, como importante fornecedor de insumos tanto para a indústria e para o comércio como para outros serviços, tem função relevante no crescimento da economia e na geração de empregos.

A elaboração deste livro resultou de um período prolongado de estudos, voltado para o conhecimento das características específicas dos serviços, desde a década de 1980 quando, por ocasião do desenvolvimento de uma metodologia de mensuração destas atividades para fins de Contabilidade Regional, como coordenadora do grupo de Contas Regionais do Estado de São Paulo da Fundação SEADE, em convênio com o IPEA/Seplan – Instituto de Planejamento Econômico e Social e com assessoria do INSEÉ-Institut National de la Statistique et de Études Économiques do Ministério da Economia da França.

Desde este início, ficou clara a ambiguidade dos conceitos teóricos e métodos de avaliação empírica então prevalecentes, insuficientes para a acuidade das estimativas, o que chamou a atenção para a importância dessa discussão e da necessidade da revisão das definições teóricas e metodologias de análise, no sentido de explicar as transformações que ocorriam nas características essenciais dos serviços e nas funções econômicas desempenhadas por estas ocupações, diante da intensificação da reestruturação produtiva e da mudança tecnológica que ampliou as trocas internacionais.

A decisão de reunir os estudos em uma publicação resultou da crescente demanda advinda de pesquisadores, pelos relatórios das pesquisas próprias, para fins de referência bibliográfica. Dada a multiplicidade de temas a serem tratados, foram selecionados os assuntos considerados como de maior abrangência para áreas chaves como estratégia e gestão da inovação, competitividade, sustentabilidade e globalização nos serviços, focalizando a evolução pela qual passaram as abordagens científicas para a compreensão destes fenômenos.

Assim, este livro tem como objetivo contribuir para a carência de bibliografia nacional sobre o tema, reunindo as visões da Nova Economia Política dos Serviços, bem como visando integrar as novas interpretações sobre as mudanças ocorridas no recente contexto mundial econômico, e ainda investigando o papel das políticas públicas neste ambiente em reformulação.

Os temas selecionados referem-se primeiramente à apresentação dos conceitos tradicionais da Economia Política dos Serviços, às premissas básicas das mudanças neste corpo teórico tradicional, enfatizando o advento das teorias evolucionárias, que melhor explicam as mudanças de paradigmas produtivos e o papel dos serviços neste contexto. Observam a criação de novas premissas teóricas que embasam a Economia Política destas atividades e que compões o corpo teórico na Nova Economia Institucional, da Economia da Informação e da Economia Criativa, complementadas por uma investigação sobre as mudanças nas conceituações e resultantes tipologias das atividades de serviços.

O último capítulo traz a análise empírica sobre a dinâmica e evolução dos serviços no Brasil, enfocando os vários aspectos anteriormente estudados, selecionados de acordo com a disponibilidade de informações estatísticas mais atualizadas no momento da análise.

O estudo da inovação nos serviços e, de forma diversa e complementar, inovação nos serviços públicos, segue como base para a investigação sobre a dinâmica destas atividades, retratada através da reestruturação produtiva e ocupacional resultante. A evolução do comércio internacional de serviços, incluindo as repercussões dos períodos de crise, é relacionada ao desenvolvimento econômico das sociedades.

Anita Kon

 

 

 

Sobre a Autora:

Foto AK_171115_C187756aAnita Kon é economista doutora pela FEA/USP e coordenadora do núcleo de pesquisa EITT (Economia Industrial, Trabalho e Tecnologia do PEPGEP da PUC/SP. Atualmente é assessor econômico – Universidad Autónoma de Madrid. Possui experiência na área de Economia, com ênfase em Teoria e Política de Planejamento Econômico. Também é autora de Unidade e Fragmentação, O Problema Ocupacional e Planejamento no Brasil II.

 

 

 

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