Despede-se a Vanguarda

Os anos tendem à crueldade. Pelos últimos deixamos nomes de peso e o cenário cultural de vanguarda se vê cada vez mais leve e pálido. 2016, com menos de duas semanas de idade, já se mostrou tão frio e impiedoso quanto seus antecessores, e reúne pelo caminho os grandes mestres da geração de 1920.

Entre cinco dias de fôlego, nos despedimos de dois dos maiores nomes da música erudita de vanguarda, Pierre Boulez e Gilberto Mendes. O primeiro, um dos maestros e compositores mais proeminentes de sua época. O segundo idem.

Ambos situados em lugares singulares e donos de linguagens surpreendentemente autênticas.

Pela ocasião, alguns dos autores publicados pela Signos Música, coleção que se dedica única e exclusivamente à música de vanguarda, se propuseram a discorrer sobre a vida e obra dos músicos.

Os irmãos Campos e outros concretistas  estiveram muito próximos do trabalho de Gilberto Mendes e foram musicados por ele em diversas ocasiões.

 

(Poema Nasce Morre, de Haroldo de Campos, musicado por Gilberto Mendes)

 

(Gilberto Mendes sobre incorporação de poetas concretistas em sua obra e sobre o teatro musical feito a partir do poema Cidade, de Augusto de Campos)

 

Agradecemos imensamente a Augusto de Campos e Livio Tragtenberg pela colaboração!

 

BOULEZ PERMANECE

 

Pierre Boulez foi e é importantíssimo para a criação da nova música que emergiu a partir da  segunda metade do século passado. Suas composições, assim como seus artigos críticos sobre a Segunda Escola de Viena, com foco especial em Webern, nos anos de 1950,  bem como a ousada síntese dialética com que equacionou as inovações do grupo liderado por Schoenberg com as de Stravinski, antes vistos como antípodas, foram essenciais para a formação de uma nova consciência musical.

Ao longo dos anos, Boulez foi um obstinado incentivador da nova música, quer à frente de instituições como Domaine Musicale e Ircam (Institut de Recherche et Coordination Acoustique / Musique), redutos infatigáveis de experimentação permanente, quer através de suas performances como regente, de fato de anti–regente, voltado estrategicamente à prática da tradução criativa (transcriAção, não só transcrição) de peças–chave da formação da música moderna. A dedicação com que se empenhou nessas atividades, generosas e radicais, em prol da escuta analítica e da reinvenção do trabalho de outros artistas, deu a muitos a impressão de esgotamento criativo. O mundo das artes não costuma privilegiar  o rigor compositivo, que é uma constante dos temperamentos críticos, à Mallarmé, como o de Boulez. Todavia, num arco de seis décadas, a sua obra, relativameante pequena, de “Sonatine” a “Repons”, passando por marcos definitivos como “Le Marteau Sans Maître”, “Sonatas para Piano”, “Livre por Cordes”, Pli selon Pli”, Dérives”, “Dialogue de l’Ombre Double“, “Messagesquisse”, revela–se de uma integridade rara, sem contar o que há de criativo nas transcriações que regeneraram nossa escuta, fazendo–nos ouvir “Jeux” de Debussy, ou a “Sagração” de Stravinski, ou tantas obras de Webern, Berg, Schoenberg, Varèse, como nunca as havíamos ouvido. “Le Marteau sans Maître” (1953-1955), em que pesem as restrições que possam ser feitas à falta de homologia do texto poético escolhido com as inovaçôes boulezianas, continua a ser uma das mais altas realizações musicais do Século XX. Além de sintetizar os avanços morfológicos da Escola de Viena com os introduzidos pelas células rítmicas stravinskianas, foi, como observou o próprio compositor, a primeira composição a manifestar, efetivamente, entre os músicos europeus, “a influência da cultura extraeuropéia”, ou mais explicitamente da música africana e asiática. Concebida para voz, flauta em sol, viola, violão, xilofone, vibrafone e percussões, criou  novas e belas constelações sonoras, fundindo estruturas de organização serialista com uma timbrística prismática, multiandamentos surpreendentes e grande diversidade rítmica. As suas obras subsequentes agudizaram a complexidade das suas perquirições musicais, mas jamais perderam a inquietação, o pulso e a pulsação, a disruptura ao mesmo tempo explosiva e organizada, o “artesanato furioso” e o “delírio de lucidez” que sempre caracterizaram o compositor.

 

Augusto de Campos

(Pierre Boulez conduz a Orquestra da Rádio CBC em 1963.  A Sagração da Primavera, de I. Stravisnky)

 

 

(Augusto de Campos sobre Gilberto Mendes)

 

 

“A perda de Gilberto Mendes e Pierre Boulez em poucos dias, nos coloca diante de duas figuras emblemáticas no universo da musica de invenção. Na verdade, são dois criadores e pensadores, que em seus campos e territórios específicos, alargaram as ferramentas e a poética da musica.

Gilberto Mendes foi profícuo, não só como compositor e professor, mas como divulgador da musica de invenção no Brasil. Por décadas, conduziu o Festival Música Nova, onde abrigou criadores brasileiros e fez dialogar com convidados de todo o mundo.

Mas Gilberto tinha, sobretudo, uma índole gregária, tão rara no meio cultural tupiniquim. Ao invés de separar, ele unia. Sua obra apresenta novas facetas poéticas que relativizam conceitos rígidos, como rigor, disciplina, estilo, etc.

Assim como Pierre Boulez, Gilberto Mendes construiu um caminho próprio de rigor e integridade intelectual. Pode-se pensar que numa direção diametralmente oposta a de Boulez que buscava na ordenação, a construção de sua linguagem.

Gilberto Mendes representou a liberdade de adotar e abandonar normas, técnicas e procedimentos, seu legado vai por aí, pela construção de uma liberdade pessoal. Engraçado, não é que se pode dizer o mesmo de Pierre Boulez, mesmo observando personalidades, obras e trajetórias tão aparentemente distintas?”

 

Livio Tragtenberg

 

 

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