Temidos 70

Aos otimistas de plantão, aqueles que contam com a calmaria de um novo ano, é hora de ficar desassossegado. O fim de 2015 marca os 70 anos da morte de Hitler, e com isso, sua polêmica e tão temida obra Mein Kampf cai em domínio público.

 

O que isso significa?

Já há alguns anos um grupo de pesquisadores do Instituto de História Contemporânea de Munique vem trabalhando em uma nova versão do livro, um estudo que pretende tratar a chamada “bíblia do antissemitismo” como um documento histórico, que merece ser revisto e comentado. A obra contará com 3500 notas e comentários e chega a quase duas mil páginas. O dia 1 de janeiro de 2016 já conta com este estrondo nas livrarias, porém com um número controlado de exemplares, que não deve passar de quatro mil, sem a certeza de uma segunda tiragem.

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Mein quempf???

Mein Kampf (em português, Minha Luta) foi escrito oito anos antes da chegada de Hitler ao poder e traz uma compilação de ideias que o ditador julgava necessárias e apropriadas para o restabelecimento da Alemanha enquanto potência. O cunho nazista e devastador do livro é inegável, e durante 70 anos o Estado da Baviera proibiu e restringiu o acesso a ele, tanto quanto foi possível.

Durante os tempos áureos do nazismo, o livro passou a ser um item básico de coleção, chegando a quatro milhões de exemplares vendidos. Inegavelmente um grande best-seller, era considerado um excelente presente para toda e qualquer ocasião. Sabemos que recém-casados e crianças ganhavam exemplares do livro, como se fosse tão bom presente quanto CDs e meias.

Mas logo os números mudam de figura. Durante os 70 anos em que esteve sob domínio da Braviera, o livro só esteve acessível via meios outros, como por exemplo, a internet, sebos, lojas de antiguidade, e é claro, o mercado negro.

 

O debate é irrecusável.

A discussão acerca da publicação do livro pode ser vista por diversos ângulos, mas o alcance da internet é um dos pontos em debate. Os pesquisadores do Instituto de História Contemporânea de Munique argumentam que a publicação comentada de Mein Kampf procura cercar o pensamento de Hitler por todos os lados, cerceando ideias totalitárias que devem ser combatidas.

Por outro lado, judeus e autoridades acreditam que a discussão já não se faz necessária. Tendo em vista o peso histórico e a tragicidade da Shoá, a divulgação do livro pode ser entendida como um enorme desrespeito às vítimas da guerra, além de um grande incitador ao ódio, não devendo nunca chegar às mãos de quem quer que seja. A autorização da leitura de uma obra como essa pode resultar no incentivo ao pensamento nazista, tanto para conhecimento e uso histórico quanto para discursos de ódio, nacionalismo e totalitarismo.

Outros argumentam ainda que o livro deva ser disponibilizado, porém somente no ambiente virtual, de forma a evitar a fetichização da obra e garantir que não encontraremos filas de compradores nas livrarias.

Resta a questão: publicar é cercear ou incentivar?

O estudo de uma obra tão nefasta pode gerar lucros intelectuais e históricos? Os pensamentos de Hitler devem ser tidos como uma relíquia de uma das maiores tragédias da história, ou será que devemos encará-la como um monstro a ser guardado a sete chaves, temendo novos descaminhos? Até onde chega a liberdade de expressão, e como evitar que ela seja usada como instrumento de ataque?

Discussões como esta figuram no contexto atual como parte de um todo muito maior, mas por fim, 70 anos após o término do conflito mundial, a questão que realmente está em pauta é: o contexto político global de 2016 aceitará a publicação de Mein Kampf, ou não existe tempo o suficiente que nos capacite e fortaleça para que este torne-se um campo seguro?

HItler

 

A Editora

Em seus primórdios, a Editora Perspectiva veio ao mundo com a coleção Judaica, que pretendia abordar, tanto em ficção como em pensamento, a produção milenar da existência do povo judeu.  Nosso catálogo é, mesmo com 50 anos nas costas, exclusivamente fiel ao debate de ideias e aberto ao futuro, tendo como um de seus ramos principais o judaísmo como cultura.

 

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